domingo, 22 de novembro de 2009

As palavras
















São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade
Fotografia: Maremfrente

Fragmento(s)
















Maremfrente. 17.11.09.

sábado, 21 de novembro de 2009

O que não soube




















O que não soube

Que nenhum astro pousava sobre o olhar atento da sua vastidão
Que nenhuma vela em nenhum mastro enchia o vento
Que nenhuma distância trazia uma asa, media a exactidão…



Maremfrente, 17.11.09.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Era uma vez...





















Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e rochas.
Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia.
Era uma praia muito grande e quase deserta onde havia rochedos maravilhosos. Mas durante a maré alta os rochedos estavam cobertos de água. Só se viam as ondas que vinham crescendo do longe até quebrarem na areia com um barulho de palmas. Mas na maré vazia as rochas apareciam cobertas de limos, de búzios, de anémonas, de lapas, de algas e ouriços. Havia possas de água, rios, caminhos, grutas, arcos, cascatas. Havia pedras de todas as cores e feitios, pequeninas e macias, polidas pelas ondas. E a água do mar era transparente e fria.




Sophia de Mello Breyner, A Menina do Mar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Clepsidra





















“Amamos o que nunca se verá duas vezes.”

















Fotografia: Maremfrente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Quem és tu...














Quem és tu que assim vens pela noite adiante
Pisando o luar branco dos caminhos
Sob o rumor das folhas inspiradas!

A perfeição nasce do eco dos teus passos
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é um gesto dos teus braços
O ardor do vento a tua juventude
E o teu andar é a beleza das estradas!

















No infinito sorriso das espumas
No chamar da maresia, no convite das brumas
Na exaltação de cada maré cheia
No teu ritmo de dança e bebedeira
(…)

Sophia de Mello Breynner.
Fotografia: Maremfrente.

domingo, 18 de outubro de 2009

A boca




















a boca,


onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar


















Eugénio de Andrade
Fotografia: Maremfrente.